Homem e biodiversidade: espectador ou personagem?


Foto: Acervo VBIO.eco, Mariana Giozza


Você já parou para pensar na amplitude do conceito de biodiversidade? Por exemplo, quando você faz esse exercício, o ser humano também entra nessa equação, certo?


Afinal, somos variedade de vida, e influenciamos, talvez mais do que qualquer outra espécie, o curso das relações naturais do planeta. Muitos estudiosos discorrem que, dentro deste conceito, é importante ressaltar a inclusão da espécie humana como componente fundamental e altamente dependente dos serviços e bens oferecidos pela natureza. Inclusive, a própria Convenção sobre Diversidade Biológica reconhece que diversidade biológica é sobre mais do que plantas, animais, microrganismos e seus ecossistemas – mas também sobre pessoas e a nossa relação de dependência da biodiversidade para segurança alimentar, saúde, abrigo, qualidade de vida e economia.


Agora, a palavra “dependência” tem o papel fundamental de nos evidenciar que, mais do que influenciadores, somos também influenciados pelos resultados das interações biológicas em todas as esferas da nossa vida. Porém, no cotidiano das nossas relações sociais, ainda mais nos grandes centros urbanos – onde nos vemos mais afastados do ambiente natural, essa relação de dependência do homem com a natureza acaba se camuflando sobre camadas de concreto, plástico e soluções prontas para consumo, como se fossem cultivadas ali mesmo, nas prateleiras, e que desaparecessem depois de descartadas. Mas cuidado, o que os olhos não veem, o planeta sente, ou melhor, a humanidade.


...nos colocarmos como espectadores nos impede de perceber como nossas ações cotidianas afetam e são afetadas pela perda da biodiversidade e disponibilidade dos recursos naturais.


Muito devido à essa “camuflagem”, vivemos hoje uma dialética sobre o papel do homem na natureza, como estamos relacionados a ela, e como podemos ser impactados pela sua destruição. Por um lado, temos uma visão praticada por povos tradicionais, que enxergam o ser humano e o natural como personagens interdependentes; por outro temos uma visão que demarca a natureza como uma externalidade e coloca o homem como espectador. O problema dessa última visão, é que em um momento em que se fala tanto sobre estilos de vida mais sustentáveis e práticas ESG como fatores cruciais para a sobrevivência dos negócios e da sociedade, nos colocarmos como espectadores nos impede de perceber como nossas ações cotidianas afetam e são afetadas pela perda da biodiversidade e disponibilidade dos recursos naturais.

Foto: Projeto Apanhadores de Flores,VBIO.eco


Para se ter uma ideia, nos países em desenvolvimento a falta de água potável aparece relacionada a 80% das mortes e enfermidades (ONU, 2019), e esse recurso do qual tanto dependemos vem de aquíferos e mananciais cujo abastecimento é afetado pela falta de saneamento, disposição de efluentes químicos sem tratamento, e seca causada pelo desmatamento em larga escala para abertura de terras. Já a produção mundial de alimentos tem pelo menos um terço da sua produção sendo influenciada por animais polinizadores (FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations) como as abelhas, cujas populações estão em declínio devido às alterações climáticas e ao uso indiscriminado de mais de 470 agroquímicos diferentes.


“Nós não salvamos ou destruímos o planeta. Nós salvamos ou destruímos a humanidade. O planeta seguirá sem nós”.

Na economia, de acordo com o primeiro relatório da série Nature Risk Rising, do Fórum Econômico Mundial, temos em torno de 44 trilhões de dólares em movimentação que são moderada ou altamente dependentes da natureza e seus serviços. Por exemplo, muitos insumos da biodiversidade brasileira são matérias-primas altamente utilizadas nos setores de fármacos e cosméticos, tais como o cupuaçu, árvore amazônica cuja manteiga é utilizada em cremes hidratantes; a carnaúba, palmeira nativa do Cerrado e da Caatinga, cuja cera é muito utilizada no revestimento de medicamentos e cápsulas medicinais; e a jararaca, serpente nativa do Brasil, cujo veneno é uma das substâncias na composição do Captopril, um dos mais populares medicamentos para pressão alta.


O impacto que sentiríamos com a perda da biodiversidade é tão grande que cada vez mais vemos organizações e instituições alertando sobre o assunto, e corporações formalizando parcerias para desenvolver estratégias com o intuito de frear a perda da biodiversidade. Dentre as lives que ocorreram na pandemia, teve uma fala muito interessante: “Nós não salvamos ou destruímos o planeta. Nós salvamos ou destruímos a humanidade. O planeta seguirá sem nós”.

Ou seja, todos somos biodiversidade, cada um com seu papel fundamental nesse cenário natural, e por isso precisamos ser personagens ativos na luta pela natureza, pois esta é necessária para que todos continuemos aqui.


Sobre a autora

Mariana Giozza é bióloga, gestora de contas de proponentes de projetos na VBIO.eco



*Artigo originalmente publicado em 17/12/2020, na Revista NeoMondo.




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